sexta-feira, 27 de maio de 2011

Por onde vagueia minha alma


Acabei de acordar de um sonho atordoado. Uma realidade fantástica que jamais vivenciei em meu estado de vigília. Sonhei que estava dentro de um ônibus, sentado, cercado por pessoas que nunca havia visto em minha vida. Eram rostos estranhos, mas felizes, pois estávamos reunidos e dialogando sobre a vida e sobre nosso encontro. Parecia que éramos da mesma cidade, porém, jamais tivemos reunidos a não ser naquele sonho. Olhei para cada rosto e não havia visto se quer um na minha vida, mas conversávamos como antigos amigos.

Estávamos em outra cidade correndo atrás dos nossos sonhos, comentando sobre como esquecemos fatos do nosso dia a dia e, justamente, o meu fato de ter se esquecido de ir a um compromisso. Alguns riam dos meus comentários, outros me chamavam de louco e acabavam concordando com a minha insanidade. O estranho que havia pessoas portadoras de necessidades especiais, no caso, mudos, porém, interagiam com nossa conversa. Tínhamos algo em comum. Todos sem exceção de algum. Queríamos ser felizes. Coisa que não poderia acontecer em nossas cidades naturais.

O ônibus passava por ruas que jamais tinha ido. Era estranho, mas ao mesmo tempo, fantástico! Incrível como nossos sonhos não fazem ir a locais jamais antes idos; a conhecer pessoas que jamais iremos conhecer pessoalmente. Isto se for um sonho! Alguns místicos acreditam que nossas almas vagueiam por um mundo infinito ao encontro de nossas almas gêmeas, de pessoas que conviveram conosco em vidas passadas e que nesta, estávamos separadas. Não sei se é verdade. Porém, acredito que nunca me senti tão intimo daquelas pessoas.

Entretanto, logo tive que se separar dos demais. Uma voz dizia para eu voltar. Assim, desapareci de dentro do ônibus e acordei deitado na minha cama, suado e com uma enorme tristeza no peito. Sentia-se vazio por não saber se irei reencontrá-los mesmo sendo em sonho. Estranho, pois nunca senti tão vazio após um sonho. Quantas pessoas eu conheci no mundo real e que se quer sentir tanta dor ao se despedir. A vida é cheia de encontros e desencontros e, pelo visto, nossos sonhos também! Não sou estudioso de sonhos e não recorro a interpretações deles; mas diante de uma reflexão irei encontrar a resposta para este sonho. Nada é por acaso em nossas vidas. Muito menos nossos sonhos, posto que eles são feitos da matéria do nosso dia a dia; da nossa vivencia diária.

Estou confuso, não sei onde é realidade onde é fantasia; Se a experiência que vivenciei era sonho ou um encontro de almas. Não sei! A única coisa que gostaria neste momento era poder voltar e reencontrar com estas pessoas. Poder terminar o inacabado e, principalmente, sorrir. Posto o que é a vida, senão o prazer de tê-la com um sorriso nos lábios e a alma transbordando de alegria?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Quem disse que a vida é breve


Quem disse que a vida é breve? Breve são os nossos sonhos. Breves e limitados! Achamos que a vida se resume a nascer, crescer, reproduzir e morrer. E, nossos sonhos, onde ficam? Há quem diga que aqueles que vivem suas vidas intensamente são seres delirantes; sem perspectivas de vida! Será que viver é trabalhar para que um dia na velhice possas se aposentar? Do que adianta os estudos, anos e anos de dedicação ao acumulo de conhecimentos se não conseguimos aprender a viver, a conviver?

Nada é mais sagrado do que viver. Será que estamos vivendo? Quanto tempo dedicamos a nos conhecer? Quanto tempo temos para saborear a vida que Deus nos deu de presente? Será que temos alguns segundos para contemplar o mundo a nossa volta? Mal nascemos e já queremos fazer parte do mundo; melhor, de um mundo sem tempo! Crescemos sonhando com o futuro. Quer-se temos a oportunidade de ser criança. Temos que crescer! Crescer para conquistar o mundo; mundo este feito de bens materiais.

Queremos dinheiro, status, amigos, uma vida estável. Será que tudo isto vale a pena? Será que somos felizes com o que temos? Carro, dinheiro, amigos, emprego. E, a nossa felicidade, onde se encontra nesta lista? Para alguns ter dinheiro e desfrutar dele é conquistar a felicidade. Então, me digas como um morador de rua pode ser feliz sem o nada? Será que a vida dele é infeliz? Parece estranho, mas quanto mais queremos fazer parte do mundo; menos este mundo nos pertence! Queremos agarrá-lo, prendê-lo entre nossas mãos; porém, é em vão, não podemos ter o mundo. Temos que nos contentar as migalhas de um mundo.

Existem pessoas com o nada conseguem ter um sorriso no rosto; já outros, com o tudo, não conseguem ser felizes. Então, qual a receita da felicidade? Será que existe mesmo? Ora! Não existe segredo: basta viver! Não há nada mais feliz do que podermos viver de acordo com nossos sonhos, desejos e projetos. Nada mais angustiante do que vivermos em função dos outros. Ter que dar satisfação a sociedade é sem dúvida o pior cativeiro que nós somos condenados a conviver.

Muitos de nós deixamos de viver as nossas vidas para viver a vida que os outros sonham e desejam para nós. Será que estas vidas que os outros planejam para nós é a que sonhamos ter? Não! Entretanto, não é fácil libertar-se das amarras que o mundo nos prende. Contudo, não podemos baixar a cabeça e achar que tudo está perdido. Podemos nos libertar e viver os nossos sonhos, as nossas vidas. É um desafio! Infelizmente, são poucas pessoas que se dedicam a seguir suas vidas de acordo com seus princípios e vontade. Quando estas pessoas conseguem viver suas vidas; o mundo se revolta contra elas. Claro! Temos que seguir os costume e regras que somos, educadamente, obrigados a seguir.

Será que compensa desafiar o mundo para vivermos de acordo com nossas vidas? Sim! Não há valores; não há bens; não há pessoas que possam pagar por nossas felicidades. Têm-se uma só vida, porque não aproveitá-la? Tudo na vida passa e não podemos deixar que nossas vidas também possam seguir os trilhos do tempo sem ao menos senti-la. Temos que fincar os pés no chão, calar-se e escutar a voz sábia do coração. Fechar os olhos e contemplar o mundo: o nosso mundo interior. Este sim é o mundo mais belo que podemos ver e que não podemos deixá-lo esmaecer sem ao menos ousar; voar por lugares que antes seria impossível estar.

Dizem que na vida tudo tem seu preço. Do que adianta pagar um preço alto e não sermos felizes? Correr riscos é uma das missões que desde quando nascemos somos lançados a percorrer. E, por que não sermos felizes? Se a vida é breve por que não vivê-la? Já dizia Cazuza: “Vida louca vida. Vida breve! Já que eu não posso te levar, quero que você me leve! Vida louca vida. Vida imensa! Ninguém vai nos perdoar, nosso crime não compensa!”. Do que adianta querer o futuro se o presente não conseguimos viver. O amanhã só nasce depois de uma noite e, a noite só surge depois de um belo dia. Temos tempo para tudo nesta vida; até pra sermos nós mesmos. Temos a oportunidade de sermos felizes. Basta querermos!

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Saudades


Um dia fui criança a olhar o mundo pela janela da minha casa. Contemplava a paisagem bucólica do meu bairro. Nasci e convivi num mundo simples e, ao mesmo tempo, rico de sonhos. Como era bom ser criança! Brincar, correr, sonhar e rir do mundo que foi criado especialmente para cada um de nós. Cada dia, ao abrir a janela da minha vida, o mundo se transformava e eu me transformava com ele. Vi crescer o meu mundo; meu bairro já não era o mesmo de outrora. De uma paisagem, quase rural, a um bairro periférico como muitos espalhados pelo mundo afora.
Lembro-me da terra nos meus pés; do meu corpo suado correndo sob o sol quente. Quantas risadas foram dadas junto com meus amigos daquela época. Desbravar o mundo era a nossa meta e os sonhos eram algo distante, mas que queríamos conquistar. Quantas vezes ao cair uma gota de chuva na terra não saíamos correndo. Querendo sentir no corpo a alegria de ser criança. Como era maravilhoso tomar banho de chuva com meus amigos... Nem sempre, ao chegar as nossas casas, nossas atitudes eram compreendidas. Muitas vezes éramos castigados e, mesmo assim, nada tirava dos nossos rostos a alegria de viver.
O tempo foi passando. Fui crescendo. As brincadeiras já eram outras e os sonhos também. Entretanto, para cada sonho um desafio a ser travado. Quantos de nós, sentados nas calçadas, faziam planos para o futuro. Queríamos ser alguém na vida. Um bom emprego; um bom salário; ser gente era tudo o que sonhávamos. Estudar era a minha meta. Não queria seguir os mesmos passos de muitos; queria romper o destino traçado pelo mundo desumano.
Das brincadeiras de ruas a movimentos sociais. Era preciso lutar por um mundo melhor. Precisávamos de ruas calçadas; de obras de infraestrutura. Como eram divertidas as reuniões dos grupos de jovens e da associação de moradores. Nem sabia que estava formando o meu ser social; queria, somente, mudar a minha realidade e dos demais moradores. O mundo inspirava outros sentimentos. Era a descoberta da sexualidade. Como eram tão inocentes as cartinhas de amor. Quantas juras de amor não foram ditas? Estávamos crescendo. Nossos corpos não eram os mesmos. A voz já estava mudada e o mundo adulto estava preste a chegar. Alguns amigos se perderam no caminho. Tiveram outros destinos. Culpa deles? Não acho! Com o mundo adulto; outros obstáculos foram surgindo. Queríamos ser adultos. Para sermos adultos, muitos quiseram imitar o comportamento e atitudes dos adultos. Triste realidade! O mundo adulto não era um sonho; era um pesadelo! Drogas, sonhos desfeitos, miséria. Vidas rompidas pela fragilidade de um mundo construído pelas aparências.
Não brincávamos na rua correndo, pulando... O mundo adulto tinha e tem suas próprias brincadeiras. Agora é necessário brincar de ser, de ter e de poder. O mundo não é tão bondoso como havíamos sonhado; ele é cruel. Sobreviver é a lei para sucesso. Pergunto: cadê meus amigos de infância? Não sei! Sumiram? O destino tratou de separar-nos. Eles ficaram no passado; presos na vida sem sonhos. Alguns se tornaram pais e mães muito jovens. Outros as drogas tratou de sucumbi-los. Além daqueles que se tornaram cegos e não me enxergam ao passar na rua. Cada um com suas vidas e seus destinos. Embora, muitos tenham apagados da memória, creio eu, ainda resta lembranças de uma vida simples, porém, feliz.
Sinto saudades da minha infância; dos meus amigos; da vidinha que levava. Sempre quando a saudade invade minha alma fecho os meus olhos e voo em direção a minha janela e contemplo a paisagem do meu antigo bairro que hoje é completamente diferente das minhas lembranças. Escuto as risadas, as falas dos meus amigos. Seus rostos, embora turvos, projetam-se na minha mente. Ah! Meu ser transborda de alegria ao recordar meu passado. Realmente, fui ousado a sonhar e lutar pelos meus objetivos. Vivenciei cada fase da minha vida intensamente, de tal forma, que hoje percebo que fui feliz e não sabia ou imaginava que não era. As dores e as feridas do passado já se cicatrizaram. As lágrimas que antes invadiam meu rosto pela dor da luta de tentar ser feliz aos poucos somem do meu rosto e dá lugar a felicidade.
Gostaria muito de voltar ao passado e reunir todos que fizeram parte da minha vida. Que pena que é impossível. Alguns não estão mais presentes de corpo; somente de alma. Outros se perderam neste enorme mundo que no passado não imaginava existir, pois meu mundo se resumia ao meu bairro, a minha rua. O que eu sei, é que jamais irei esquecer. Eu me prendo a estas lembranças e invento outras para sobreviver. Tornando minha vida menos solidão. Resta-me perguntar: por que o destino separa vidas? Uma pergunta sem resposta. Enfim, o tempo passou; deixou saudades. Marcas de uma vida vivenciada intensamente.