quinta-feira, 8 de abril de 2010

A educação e meu destino



Quando era garoto lembro-me bem quando minha mãe iniciou a vida docente. Numa comunidade humilde todas as noites, ela se dirigia a um tipo de galpão onde se realizava encontros da comunidade. Na época, eu não entendia o que era Associação de Moradores, só sabia que os moradores do bairro se reuniam no domingo pela manhã para discutir os problemas do bairro e, que se diga de passagem, eram muitos. Boa parte da minha infância e adolescência reside neste bairro e aprendi de forma não sistemática, a conviver com o descaso das autoridades governamentais, o preconceito, a marginalização, a sonhar e crer numa vida melhor.
Contudo, algo estava mudando naquele bairro, além de quererem melhorias para a comunidade, sentiam-se a necessidade de “dominar as letras”. Pode ser para quem esteja lendo esta postagem ache algo banal, mas para quem ver uma página contendo dezenas e dezenas de letrinhas um mundo mágico que se desvenda aos olhos. Dos anseios da comunidade e movida pelo desejo de uma sociedade justa; um grupo de professoras universitárias realizam um projeto de educação popular. Inspiradas na vida e obra de Paulo Freire, as utópicas educadoras decidem realizar o projeto na comunidade em que eu residia. Entusiasmada com a novidade, minha mãe, coloca-se a disposição do projeto e inicia junto com as demais professoras um projeto de inclusão social por meio da educação.
E assim, durante algumas semanas, minha mãe, às noites se dedicava a decodificar o mundo encantador das palavras para aquela comunidade. Naquele período, eu já era alfabetizado, estava cursando a 1ª série do Ensino Fundamental. Porém, não perdia se quer uma noite de aula. Era a minha diversão predileta: acompanhar minha mãe e assisti-la. Sentia orgulhoso e muito envaidecido. Oras, nem todo mundo tem como mãe uma educadora. Uma mulher “letrada”, educada. Lembro-me bem, como minha mãe era querida, admirada. Numa sociedade em plena década de 80, numa comunidade pobre, marginalizada e machista; uma mulher independente, dona do seu destino, que conciliava as tarefas do lar com uma profissão, para muitos era algo extraordinário.
Os dias iam passando e eu assistindo a dedicação da minha mãe com seus alunos. Embora, também tinha passado pelo processo de alfabetização ficava encantado com a alegria daqueles alunos, muitos deles já calejados pela vida, com o progresso que obtinha. Das mãos grossas e cheias de calos brotava as primeiras letras. Quantas pontas de lápis foram quebradas; quantas folhas de cadernos foram rasgadas; quantas folhas foram borradas pelas lágrimas de emoção a cada passo que conquistavam; quantas linhas foram preenchidas por uns garranchos que aos poucos se transformava em cidadania. Sim! Aos poucos eles estavam aprendendo como exercer a cidadania e o primeiro passo era saber como escrever seus próprios nomes. Não era somente os alunos que não queria perder um dia de aula; eu também não queria. Estava encantado com o mundo da aprendizagem e nem se quer percebia que um dia isso iria influenciar nas minhas decisões futuras.
O tempo foi passando e a cada dia convivia com o universo da educação. Não poderia ser diferente; eu era filho de uma professora. Vivia cercado de livros, cadernos, apostilas, provas e tudo aquilo fazia parte da minha vida como o ar que respiramos e a água que bebemos. Cresci e chegou o momento crucial da vida de qualquer jovem, a escolha da profissão em que irá se dedicar por alguns anos da vida. Pensei e refleti, ate que cheguei a conclusão que iria fazer a inscrição do vestibular para Pedagogia e Enfermagem. Muitos estranharam a minha escolha. Porém, é cruel para um jovem ter que decidir pelo seu futuro. Resolvi resgatar no meu ser os meus sonhos e desejos. Pensei muito sobre cada profissão, pós e contra de cada uma e as minhas condições. Embora, nossos sonhos sejam ilimitados, mas a realidade é outra. Muitas pessoas sugeriram alguns cursos, entretanto, as lembranças do passado fizeram tomar a decisão. Lembrei da dedicação da minha mãe e do amor que ela recebia dos seus alunos e assim, escolhi cursar Pedagogia.
A Enfermagem entrou na minha vida de forma de manifesto, sentia que não era só de educadores que a sociedade necessitava, mas de profissionais em saúde que pudessem cuidar com carinho de vidas. Poderia ter escolhido a Medicina; não somente, pelo poder econômico, como também, pelo status social. Quantos jovens que convivem em comunidades carentes não sonham mudar de vida e crer que a Medicina pode romper as barreiras? Segui o contrário, não desejava obter status e muito menos, dinheiro. Eu queria era ser útil. Assim, a Enfermagem entrou na minha vida, pois não é só mais uma área da saúde, mas uma atividade de amor. Iguais aos educadores, os enfermeiros exercem suas atividades com empatia e doação. O afeto e o carinho são os instrumentos que cada um destes profissionais utilizam no seu dia a dia.
Foram alguns anos convivendo com o mundo acadêmico das universidades. Pressionado, tentei, melhor, fingi que estava tentando prestar vestibular para outras áreas mais “nobres” que a sociedade tanto idolatra. Não tinha vocação para outras áreas e já concebia que uma destas áreas seria o meu alimento de cada dia. Não desisti, continuei a seguir os meus sonhos. Recebi o grau e estava apto a entrar no mercado de trabalho. Fazer a ultrapassagem da academia para o mundo do trabalho não foi fácil. Os sonhos de mudar o mundo, a sociedade; o desejo de ser útil foram aos poucos sendo minados pelas portas que foram fechadas, pelas promessas que não foram cumpridas. Aos poucos, fui percebendo que a vida adulta era mais complexa do que eu imaginava e que ter um curso superior não era garantia de emprego. Quantas críticas; quantas palavras dolorosas não escutei. Muitos faziam crer que se eu tivesse cursado a tal de Medicina/ Direito com certeza não estaria sem trabalho. Meus certificados de conclusão de curso parecia com um enfeite que ornamentava minha alma. E todo segundo escutava: a melhor coisa a ser feita era dedicar-se aos concursos públicos. Ter uma vida estável era o que muitos desejavam para mim. Sentia-me triste. Não exercer a profissão a qual escolhi era o mesmo que amputar um membro. Vivi dias de luto. Tudo fazia crer que era melhor rasgar meus certificados e sofrer de amnésia; só assim, poderia me dedicar a uma vida trancada dentro de um escritório.
Com baixa estima, tentava manter na minha alma a chama acesa dos meus sonhos. Como é torturante ser questionado, depreciado, julgado. Embora, vivendo uma tempestade de dilemas e aflições, preservava a faísca dos meus sonhos e acreditava que nem que fosse nos últimos dias de minha vida, iria exercer a aquilo que escolhi para minha vida. Já abalado com tantas cobranças e palavras não confortáveis, prestei concurso para professor seletista do Estado. Não era um cargo efetivo, mas temporário. Contudo, precisava sentir útil. Necessitava sentir vivo. Fazer concurso para professor temporário; perder tempo em vez de se dedicar a um concurso efetivo era muitas dos questionamentos que recebia. Na realidade, não tinha condições psicológicas para concentrar e dedica-me a um concurso que não pertence à área de minha formação. Enfim, logrei exito: fui aprovado. Nossa! Como é bom saber que é capaz; que o mundo pode ainda ter cores. Pode ser que a alegria que senti tenha sido exagerada, porém, para um ser que foi empurrado para o fundo do poço, saber que é capaz é receber as bençãos dos céus. O sol tornou-se mais radiante; a vida mais saborosa. Eu estaria a um passo de ser PROFESSOR e ter meu primeiro emprego era algo fascinante.
Fui convocado, assumi o cargo de professor do ensino médio profissionalizante. Conheci meu local de trabalho, recebi a lista de turmas em que iria ministrar aulas e tudo era mágico para mim. Estava radiante com a novidade. Oras, agora eu estava tendo a oportunidade de unir as minhas duas formações universitárias: a Pedagogia e a Enfermagem. Senti-me submerso em meio a tantos sentimentos e emoções que afloravam com a novidade. Tinha uma grande missão: educar/preparar jovens para o mercado de trabalho e essa missão era mais do que transmitir os meus conhecimentos, era uma forma de satisfazer meu ego.
Ah! Meu primeiro dia de profissional. Nervosismos; sudorese excessiva, calafrios, entre outros, faziam parte do meu ser. Não podia falhar. Era a oportunidade de conquistar o mercado de trabalho e colocar em prática tudo aquilo que aprendi na academia. Entrei na sala de aula. Fiquei alguns minutos contemplando aquela turma de primeiro ano do curso Técnico em Enfermagem. As lembranças de quando eu era pequeno veio à mente: eu estava seguindo os passos da minha mãe. Estava iniciando minha vida docente. Meu coração disparou, sentir perder o piso sob aos meus pés. Queria fugir dali, mas não podia: a parti daquele momento, eu estava entrando no mundo mágico da educação. Controlei minha emoção, meu nervosismo e comecei a conhecer a cada um daqueles que estavam sob minha responsabilidade intelectual. Os minutos iam voando e quando percebi o sinal estava soando, finalizando a aula. Ufa! Sobrevivi o meu primeiro dia de professor.
Comecei a colocar em pratica os métodos e técnicas de ensino aprendidas no curso de Pedagogia, mas a realidade é diferente daquelas encontradas nos livros lidos na universidade. A educação é muito mais heterogênica do que eu imaginava. Hoje tenho a certeza que muitos dos ensinamentos de didática não tem nenhum efeito frente a necessidades tão diversificadas dos educandos. Cada um na sua individualidade cognitiva exige um manejo adequado e que suprir as necessidades de todos se torna uma missão impossível. Com acertos e erros, estou tentando encontrar a maneira mais eficaz para penetrar no mundo cognitivo dos meus alunos. Tenho a certeza que não irei suprir os anseios de todos, mas estou disposto a suprir o maior número de alunos possíveis. Sei que não existe manuais, receitas prontas de como ser um bom professor. Porém, reconheço que o melhor método de ensino é a doação. Não uma qualquer doação, e sim, uma doação comprometida com a mudança de atitudes. Não adianta discorrer sobre todo o conhecimento acumulado pelas gerações passadas se esses conhecimentos não forem envolvidos pelo amor. Essa é a maior lição que eu estou aprendendo no exercício de minha atividade laboral: não importa o método, o conteúdo, a técnica, os recursos audiovisuais se estes não conter uma gota de amor.
Sinto-me orgulho de ser professor; em dizer que tenho como profissão a educação. Sei que muitos outros profissionais são mais valorizados e recebem da sociedade maior prestígio. Sei também, que somo marginalizados e financeiramente, recebemos tão pouco pela grande importância que desempenhamos na sociedade. Contudo, se não existisse a profissão professor, não teríamos as demais profissões. É a partir do nosso trabalho que formamos os demais profissionais. E assim, procuro no meu trabalho fazer com que os meus alunos compreendam a importância da educação na vida de cada ser. Para isto, além de transmitir os conhecimentos científicos e técnicos da Enfermagem, procurarei envolvê-los com afeto para que estes profissionais recebam durante a sua formação o que é o mais sagrado no ser humano: a subjetividade do amor. Para que no seu dia a dia possam exercer sua profissão com carinho e dedicação, ou seja, com técnicas e procedimentos que valorizem e respeitem a dignidade humana.
Hoje está fazendo um mês que iniciei a vida docente. Já dizia Paulo Freire que ninguém foge da educação e, com certeza, eu não consegui fugi. Apesar do cansaço físico e mental, acredito que fiz a escolha certa. Espero conseguir conquistar meus objetivos e quem sabe um dia receber dos meus alunos o carinho e o respeito que um dia, quando criança no passado, eu via minha mãe recebendo. Não sei até quando irei exercer a atividade de educador, porém, quando o futuro não chega, irei dias após dias fazer um momento único na vida de cada indivíduo que estiver sob meus cuidados profissionais. Não sei se receberei o titulo de BOM PROFESSOR, mas irei esforçar-me a não ser considerado o pior deles.



domingo, 28 de fevereiro de 2010

Homens: mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas


Mulher! Um vocábulo simples que abrange uma significação complexa. Um ser de infinita adjetivação social que traz consigo o dualismo de sentimentos que são inerentes da essência feminina. Embora considerada um sexo frágil, ela vem mostrando a bravura de ser mulher. De uma simples imagem de objeto sexual e/ou reprodutora, a mulher vem conquistando, lado a lado com o homem, o seu espaço na sociedade desigual.
Desde o momento da construção da consciência feminina, a mulher na sua trajetória histórica vem lutando contra a visão machista da sociedade sem perder o que é mais de precioso: os aspectos subjetivos dos seus sentimentos.
Frágil, Guerreira, amante, entre outros. São vários os adjetivos relacionados à mulher que tentam dimensionar as características femininas quem embora a descrevam, não conseguem contemplar a infinidade da sua singularidade humana.
Sem perder o seu encanto, elas fazem parte do mercado de trabalho desleal; sofrem o assedio moral e sexual de uma sociedade que tenta desvalorizar seu papel na economia que ainda crer que a mulher é para o lar e educação dos filhos. A mulher é muito mais do que um simples lar; ela é construtoras dos avanços sociais. Com sua particularidade sentimental, elas conseguem conquistar o que querem.
Embora, seja alvo da brutalidade da competição do mercado de trabalho, elas conseguem educar e amar como ninguém. São mulheres como aquelas de Atenas cantada por Chico Buarque que são exemplos de amor e dedicação:

"Mirem-se no exemplo/ Daquelas mulheres de Atenas/ Vivem pros seus maridos/ Orgulho e raça de Atenas/ Quando amadas se perfumam/ Se banham com leite, se arrumam/ Suas melenas. Quando fustigadas não choram/ Se ajoelham, pedem imploram/ Mais duras penas, cadenas.
Mirem-se no exemplo/ Daquelas mulheres de Atenas/ Sofrem pros seus maridos/ Poder e força de Atenas/ Quando eles embarcam soldados/ Elas tecem longos bordados/ Mil quarentenas. E quando eles voltam, sedentos. Querem arrancar, violentos/ Carícias plenas, obscenas.
Mirem-se no exemplo/ Daquelas mulheres de Atenas/ Despem-se pros maridos/ Bravos guerreiros de Atenas/ Quando eles se entopem de vinho/ Costumam buscar um carinho/ De outras falenas/ Mas no fim da noite, aos pedaços/ Quase sempre voltam pros braços/ De suas pequenas, Helenas.
Mirem-se no exemplo/ Daquelas mulheres de Atenas/ Geram pros seus maridos/ Os novos filhos de Atenas/ Elas não têm gosto ou vontade/ Nem defeito, nem qualidade/ Têm medo apenas/ Não tem sonhos, só tem presságios/ O seu homem, mares, naufrágios/ Lindas sirenas, morenas.
Mirem-se no exemplo/ Daquelas mulheres de Atenas/ Temem por seus maridos/ Heróis e amantes de Atenas/ As jovens viúvas marcadas/ E as gestantes abandonadas, não fazem cenas/ Vestem-se de negro, se encolhem/ Se conformam e se recolhem/ As suas novenas/ Serenas.
Mirem-se no exemplo/ Daquelas mulheres de Atenas/ Secam por seus maridos/ Orgulho e raça de Atenas.

Enfim, poderia ter utilizado qualquer outra musica para retratar a figura da mulher, porém, estaria tendo uma visão distocida da realidade feminina. Não que eu tenha uma imagem de mulher submissa, mas concebo uma visão romântica da mulher. São heroínas que convivem com o mundo selvagem sem perder a feminidade. Quando amam são amantes eternas, capazes de secarem e perderem a vividez por um grande amor. São seres apaixonantes e apaixonadas por seus ideais. Mulheres que lutam para serem felizes e para tornarem tudo a sua volta em amor. São mártires de uma sociedade em que a muito tempo perderam seus valores e princípios e, como homem, sugiro aos demais a mirarem no exemplo das mulheres de Atenas que largam tudo em favor dos seus ideais.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

De volta à barbárie

Assistindo ontem o paredão do BBB10 percebi o quanto o Brasil é um país antagônico. Durante séculos o povo brasileiro lutou pelos direitos humanos; direito da livre expressão; direito a liberdade sexual; direito de conviver numa nação sem preconceitos e rótulos. Foram inúmeros indivíduos que sacrificaram suas vidas aspirando um Brasil sem preconceitos, na tentativa de construir uma nação onde todos pudessem exercer sua cidadania de fato e de direito.
Não podemos esquecer que a historia brasileira foi, e ainda continua sendo, repleta de fatos de intolerâncias contra as minorias. Quantos índios e negros foram escravizados, mortos e ceifados seus direitos? Quantas mulheres foram destituídas do direito de decidir o seu próprio futuro, tornando meros objetos do machismo? Quantos homossexuais não foram agredidos e mortos pelo fato de lutar pela liberdade de expressar seu amor? Em nenhum momento da historia a classe dominante preocupou-se com os excluídos e os marginalizados, pelo contrário, procuraram cada vez mais segregar as minorias nos guetos da sociedade.
Quando achamos que estamos superando os nossos limites da intolerância ao próximo, assistimos em canal aberto a carnificina dos direitos individuais de livre expressão. Sabendo que um dos maiores mecanismo formadores de opiniões é a televisão, a qual tem um papel crucial na formação de consciências humanitária, verificamos que este papel foi jogado na lata de lixo em prol da audiência e, quem sabe, obter mais lucros com a violação dos princípios éticos, morais e políticos.
Quantos brasileiros neste momento estão regozijando ao saber que um indivíduo másculo, com gírias toscas, comportamento selvagem e heterossexual foi escolhido para continuar na luta pelo um milhão e meio de reais?Algo contra? Não! Todos têm o mesmo direito, porém, não podemos esquecer que neste caso outra pessoa foi oprimida e marginalizada. Será que o resultado não seria diferente se a concorrente no paredão fosse heterossexual? Quantas pessoas não explodiram de alegria ao escutarem que um indivíduo iria quebrar o dedo da adversária e enchê-la de pancada até ser atendida num pronto-socorro se ela não fosse mulher? Quantos brasileiros não gritaram aos quatros cantos do país o seu apóio ao candidato e repúdio ao adversário do sexo feminino e de orientação sexual oposta?
“É isso mesmo Dourado, quebra o dedo desta sapatona!” “Vai Dourado, elimina essa bigoduda!” “Mostra ao Brasil que somos um país macho!” “Vamos acabar com essa viadagem no Brasil!” Essas e inúmeras outras frases foram clamadas em todo o Brasil. Contudo, alguém percebeu algo nestas frases? Por que será que em nenhuma das frases a Angélica não foi chamada pelo seu nome de batismo? Por que não o chamaram o Dourado de bruto, de selvagem, de tosco? Sabe por quê? Pelo simples fato da Angélica ser mulher e não ser heterossexual. Infelizmente a sociedade machista brasileira não aceita que a mulher ocupe espaço de destaque e muito menos recuse se submeter aos desejos sexuais masculinos.
Entretanto, não só culpo os brasileiros por esta atitude; a emissora contribuiu para que se propagasse uma cultura de intolerância e violência contra o próximo. Bem criativa as charges exibidas pelo programa. Porém, esquecemos de fazer uma análise profunda da ideologia imposta de forma astuciosa. Por que sempre as caracterizações dos indivíduos homossexuais são exacerbadas pela orientação sexual? Será que alguém percebeu que o veículo motorizado da Angélica tinha formato de sapato? Por que será que tinha esse formato e qual finalidade tinha? Seriam estereótipos...?
Fico ainda mais triste ainda em saber que milhares de brasileiros se lamentam ao ver na mídia indivíduos de orientação sexual diferente das deles e acham que os mesmos são influências negativas para a educação dos filhos. No entanto, nenhum pai ou mãe questiona os valores grotescos do Dourado. Será que estes pais preferem que seus filhos sejam agressivos, bandidos, agressores, assassinos a serem gays ou lésbicas? Cadê os valores humanos da família? Ser um indivíduo de orientação sexual diferente é tão tenebroso assim?
Não entendo o por quê dos brasileiros almejam tanto um país sem violência ao passo que nas pequenas atitudes se mostram intolerantes. Se quisermos educar nossos filhos na cultura de paz, valorizando os princípios éticos da boa convivência; é preciso, antes de tudo, aprender a respeitar o próximo. Ter uma tonalidade de cor diferente, uma orientação sexual diferente, um aspecto físico diferente não é sinônimo de inferioridade e, muito menos, de desprezo. Enquanto estivermos cultuando os valores de uma sociedade machista e preconceituosa nunca iremos sair do estado de barbárie. Não adiantar se gloriar em ser no futuro a quinta maior economia do mundo se o nosso povo não souber conviver com o diferente.

sábado, 12 de dezembro de 2009

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Saboreai a vida com emoção




É preciso saborear a vida, degustando cada segundo de vida que temos. Nada é eterno e tudo é passageiro. Um dia fomos crianças; hoje somos adultos e amanhã só o destino saberá dizer. Cada momento que temos nas nossas vidas é único, não podemos voltar atrás; é preciso seguir em frente, cruzando o desconhecido em busca da felicidade.




O tempo escorre entre nossas mãos. Não podemos segurá-lo e, com um piscar de olhos o tempo passa, corre, voa. Resta-nos apreciar diante de um espelho as marcas nos nossos rostos. Não podemos, jamais, perder tempo. Temos que viver intensamente o nosso momento presente. O passado passou, o futuro é algo incerto e, hoje, é o nosso dia de ser feliz.




Temos tão pouco tempo para saborear os presentes que a vida nos dá e, esse tempo se torna muito menor quando desviamos as nossas atenções a elementos de pouca importância e que de nada irá nos tornar feliz. O mundo foi feito para ser degustado, saboreado. Senti-lo com todo o nosso ser.




De nada adianta pedras preciosas, ouros, prestígios se eles não nos trazem a felicidade. A felicidade não está nas coisas, nos objetos e, sim, em nós mesmos. A felicidade está dentro de cada um e, somente irá manifestar, se cada um de nós souber cultivar o amor. O amor é um dom gracioso, não tem preço e é benéfico à alma. Somente com o amor podemos construir nossos verdadeiros tesouros que transcedem a existência humana e todo seu entendimento.




É necessário saber viver! Viver não é está no mundo como um passageiro, vendo o mundo passar diante de uma janela. É muito mais do que isto: viver é uma constante aprendizagem. Estamos vivos para aprender a ser HUMANO. E, ser um humano é saber que somos limitados, porém, infinitos. Podemos construir nossa historia em vez de ser meros expectadores da historia. Somos o que semeamos.




Assim como o sol nasci todos os dias, temos a oportunidade de sermos felizes todos os dias. Ser feliz só depende, exclusivamente, de cada um de nós. Para isto, basta abrir as portas das nossas almas para a vida e degustar a vida com emoção.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Meus sonhos: meu alimento



Hoje senti a vontade de sonhar, de alcançar voos sobre o mundo da imaginação. Voltar a ser criança com poderes de criar e recriar o mundo a minha volta. Como é mágico ser criança! O poder que temos de voar sem sair do chão. Quero voar sobre as nuvens. Contemplar o céu com o calor dos raios do sol aquecendo minha alma. Quero voar mundos, conhecer novas vidas. Quero subir alto e acompanhar os passos dançantes das nuvens. Sentir o ar tocar no meu rosto e adormecer embriagado de felicidade. Como é bom sonhar!

Fecho meus olhos e logo estou voando... Tenho poderes mágicos... Posso voar, posso congelar o tempo... Sou invencível. Quero ser o Sonho de Ícaro “Voar, voar; Subir, subir; Ir por onde for; Descer até o céu cair; Ou mudar de cor; Anjos de gás; Asas de ilusão; E um sonho audaz; Feito um balão...” Quero descansar meus pés calejados de caminhar em busca da felicidade. Quero criar asas e elevar o meu ser a novos horizontes.

Meu ser é como ar; ninguém o consegue aprisionar, somente tocá-lo. “Eu sou assim; Brilho do farol; Além do mais; Amargo fim; Simplesmente sol...” Quero sair sem destino, desbravar o mundo da imaginação e tornar tudo em realidade. Quem não gostaria de tornar sonhos em sonhos possíveis, reais? Sou como uma criança e tudo “O que sai de mim; Vem do prazer; De querer sentir; O que eu não posso ter; O que faz de mim; Ser o que sou; É gostar de ir; Por onde, ninguém for...; Do alto coração; Mais alto coração...” Quero sentir meu coração bater forte, emocionado por viver... “Viver, viver; E não fingir; Esconder no olhar; Pedir não mais; Que permitir

Não quero acordar, quero continuar a sonhar. Enquanto adormeço com meus sonhos aprendo que a vida pode ser mais fácil. Que a vida pode ser mais feliz e o mundo pode ser diferente. Quero que a chuva do prazer caia e molhe a terra da fantasia, fazendo com que brote a esperança de dias melhores. Pode ser que seja capricho da minha imaginação, mas quero sentir a minha infância quando em dias de inverno ficava na janela da minha casa e contemplava as gostas da chuva caírem do céu e tocarem a terra. Gotas por gotas, molhando onde um dia era seco e com o passar do tempo perceber que a terra estava úmida e fértil e, após cessar a chuva ver no céu os raios dos sol aquecer a vida, observando os pássaros, as borboletas abrirem suas asas e voarem junto com meus sonhos.
Sinto a necessidade de sonhar; de ter um mundo particular; de extravasar os limites dos ser humano. Preciso navegar os mares da incerteza e pôr em terra a certeza de que tenho a capacidade de realizar meus sonhos. São os sonhos que alimenta e move a humanidade, sem eles, tudo ainda continuaria sendo o caos. Sonhar é viver. Ninguém vive sem sonhos. Alguns sonham sonhos grandiosos; outros, pequenos e simples, porém, todos sonham. Eu tenho meus sonhos e preciso deles para sobreviver nesse mundo de desilusões. Enquanto o mundo real não seja aquilo que imagino nos meus sonhos, quero continuar a fantasiar o mundo. Vou continuar a sonhar como o Ícaro e quem sabe, um dia, posso acordar do mundo da imaginação e perceber que a vida real é muito melhor do que o meu mundo imaginário.

Texto em itálico extraido da letra da musica Sonho de Ícaro (Composição: Pisca / Claudio Rabello)

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Alucinação de vida

Acordei com uma sensação estranha. Tinha alguém a observar meu silencioso sono. Estranho! Estava no meu quarto e encontravam-se eu e eu mesmo. Ninguém estava ali que pudesse velar meu sono. Olhei para o lado e vi algo estranho; ele estava me olhando. Silenciosamente observava o meu despertar. Mudo, não dizia se quer uma palavra, porém, continuava a olhar-me.

Olhei nos olhos dele. Senti a sensação fria do julgamento. Será que ele está me condenando? O que eu fiz? Será que ele está olhando para meu corpo seminu? Cobri com o lençol o meu corpo envergonhado com tais olhares fuzilantes. Contudo, ele permanecia a olhar e aquela sensação me deixava mais constrangido. O que tenho de anormal? Por que será que ele me olha intensamente? O que está passando na mente dele? Meus pensamentos entravam em colapso tentando desvendar a mente daquele sutil e frio observador.

Permanecia em silencio a observar. Será que ele está lendo os meus pensamentos? E agora, o que será de mim? Tentei virar de lado e esconder meu rosto, mesmo assim, sentia que estava sendo observado. Drogas! Por que ele não fala o que quer de mim? Encarei-o. Estava eu e ele trocando olhares: mudos; estáticos e frios. Tentei levantar-me e ir em direção a ele. Não tive coragem, recuei-me e continuei debaixo das cobertas. Que corajoso eu sou! Não tive coragem. Seu olhar era demasiadamente torturante fazendo com que não tivesse se quer uma atitude em relação a este sujeito.

Tentei fechar os olhos, mas não adiantava. Ele invadia meus pensamentos e dilacerava qualquer reação que minha mente tinha. Sim, ele estava a me julgar. Seus olhos acusavam. Agora não era somente o seu olhar que me intrigava, descaradamente estava com um sorriso no canto da boca. Estava a me recriminar? Oh! Dúvida cruel. Por que agora era alvo do deboche? Não posso ser eu mesmo? Ficava cada vez mais constrangido e triste no canto da minha cama.

Olhei aflitamente as horas do relógio. Eram 6:30h da manhã. Queria sair correndo do quarto e acabar com essa situação. Entretanto, meu corpo não obedecia. Estava encarcerado. Prisioneiro dos olhares daquele sujeito estranho. Os minutos corriam como águas num rio de corredeiras perigosas. E estava eu e ele trocando olhares: mudos, estáticos e frios. Por vários minutos permanecemos nessa situação desoladora: ele olhando e eu tentando saber o que se passava na mente dele sobre a minha pessoa. Triste! Não conseguia decifrar a mente dele. Era uma luta em vão. Ele era mais forte. Restava-me fechar os olhos e esperar as horas passar para que aquele sujeito fosse embora.

Não agüentava mais essa situação. Respirei fundo, criei coragem, olhei nos olhos dele e disse: O que você tem contra mim? Por que me olhas com desdém? Calado estava, calado ficou. Se quer disse alguma palavra. Somente balançava sua cabeça para um lado e para o outro como se tivesse reprovando minha atitude. Envergonhado, culpei-me: como tive a coragem de ter tamanha atitude? Agora ele já tinha mais um motivo para me condenar. Como fui inocente em achar que ele iria revelar todos os seus pensamentos sobre mim. Senti raiva! Estava furioso por cometer essa atitude e, cada vez mais, envergonhado com a presença dele.

Engraçado! Essa sensação já havia sentido antes. Não lembro o tempo, o espaço, o sujeito, a ação. A única certeza que já havia presenciado essa sensação em algum determinado momento da minha vida. Creio que também outras pessoas já vivenciaram a mesma situação. Quem nunca foi alvo dos olhares da sociedade, do seu julgamento, das suas atitudes? Com certeza, muitos de nós, em algum momento, formos vitimas das investidas cruéis da sociedade.

A sociedade olha-nos com um ar de arrogância: sempre é superior. Tudo o que difere dos padrões, costumes, regras do seu pensamento secular é alvo de condenação. Somos julgados sem ao menos ter o direito da defesa. Apontados. Apedrejados. Dilacerados. Excluídos. Que ser cruel! Por que não podemos ter nossa própria “vidinha”, livre e feliz, sem o julgamento dos outros? Por que temos que fazer parte dessa massa recheada de privações? Temos que modelar nossas vidas em função dos outros? E, se rebelarmos, o que acontecerá conosco?

Desesperadamente, esfreguei meus olhos com os dedos na tentativa de acordar desse pesadelo. Porém, ele continuava a me olhar e reprovar minhas atitudes. As lágrimas quiseram percorrer e umedecer a linhas desgastadas com o tempo do meu rosto. Senti mais triste em saber que estava triste com essa situação. Era fato! Ele me julgava e eu não podia fazer nada contra. Cobri meu rosto com as mãos desesperado e envergonhadamente. Nada podia fazer. Era eu e o ventilador. Era eu e a sociedade.